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Algumas notas sobre a família (revisto)

1. O fim da hegemonia da família tradicional, homem, mulher e criança(s), só poderá trazer uma melhoria real nas condições de vida e no bem-estar das crianças e da sociedade em geral. O fim dessa organização social, claramente ultrapassada pelo desenrolar da economia e da tecnologia, permitirá, finalmente, pensar a educação das camadas mais jovens da humanidade sem estarmos condicionados pelas rígidas, e algo limitadas, paredes da vida familiar.

2. Se analisarmos as nossas experiências pessoais, chegaremos à conclusão que a família atua, quase sempre, como uma fortaleza de conservadorismo e atraso social; é ela, e não a sociedade, que normalmente impõe barreiras ao desenvolvimento intelectual das crianças e dos jovens, e com isso deita-se a perder gerações inteiras de homens e mulheres que não farão mais do que perpetuar uma organização social caduca, ineficiente e incapaz de resolver, por si, os seus problemas internos. Só assim se explica a proliferação de conselheiros matrimoniais, consultórios de psicologia/psiquiatria, igrejas e todo um conjunto de serviços, que existem unicamente para salvar a família tradicional do seu previsível desaparecimento.

3. A juventude ganharia imenso com o fim da família pois poderia aproveitar essa etapa preciosa da sua vida para estudar, viajar, aprender livremente com os seus erros e divertir-se à séria, sem passar metade do seu tempo em crises depressivas e a tentar explicar, aos exclusivos patrões da sua vida, necessidades e desejos que inexplicavelmente os pais parecem não compreender; como se a passagem para a vida adulta os tivesse tornado amnésicos. O fim da família também eliminaria a triste simulação, sempre com maus resultados, por parte dos jovens das relações amorosas dos adultos, isto porque, como se sabe, os adolescentes não lidam bem com as contradições que abundam nas relações entre homens e mulheres adultos; e é precisamente isso que os incita à rebeldia: a incapacidade de conciliarem opiniões contrárias à sua.

4. É ponto assente que a propriedade privada é um entrave ao desenvolvimento económico, pois bem, também a família o é e como tal deve ser socializada. Com a socialização da família evitar-se-iam as tragédias do abandono escolar precoce e a impossibilidade de continuação dos estudos universitários, provocadas por o estudante possuir uma família irresponsável ou simplesmente incapaz de financiar a educação dos filhos, porque a educação das novas gerações seria, efetivamente e não apenas no papel, do interesse de toda a sociedade; acabavam-se também os bancos parasitários que se aproveitam da desgraça dos jovens para lhes oferecerem uma «mãozinha». O fim da família significaria, muito provavelmente, o início da educação gratuita e de qualidade para todos.

5. Se a família é uma instituição ultrapassada, então também o são os exércitos, os estados, as igrejas e outras instituições que operam em princípios idealizados durante os séc. XVIII e anteriores. Diderot escreveu sobre a vida escandalosa dos conventos, Balzac sobre a comédia da vida conjugal, Zola sobre a promiscuidade da burguesia, Eça sobre a mesquinhez da família pequeno-burguesa, Sartre e Simone sobre a incapacidade das classes médias terem uma vida normal e hoje, nas telenovelas, presenciamos a perpetuação dessa caricatura que é a vida familiar, uma autêntica paródia que toda a gente, apesar de a ver, acha no mínimo ridícula. Perante tais evidências ainda têm a desfaçatez de dizer que a família, como núcleo social, funciona? Isto para não falar nas famílias reais que se tornaram antros de escândalo, corrupção e de incompetência governativa.

6. Ao mantermos a organização familiar nuclear, protegida e incentivada pelo estado, estamos somente a perpetuar o atraso económico e a fomentar partidos de ideologia duvidosa que promovem missas à frente do parlamento quando existem lugares, com todas as condições, para os praticantes do catolicismo realizarem os seus ritos sem incomodarem os demais cidadãos e trabalhadores.

7. Encontrei numa das inúmeras revistas de propaganda cristã que o mal que assola este mundo deve-se ao desrespeito à família e às instituições. Permitam-me que discorde. O que está mal na sociedade é não existirem creches públicas de qualidade e gratuitas, não existirem ATLs e não existir um serviço pleno de apoio à maternidade/paternidade; o que está mal é as igrejas terem melhores condições que muitas escolas, e os hospitais públicos fecharem dificultando assim o cumprimento do direito ao aborto; o que está mal é varrerem do mapa os apoios à família como o abono familiar. Ou seja, na prática, em vez de avançarmos para a frente, reforçando os meios de auxílio à família, recuamos, eliminando-os. Assim, não é de admirar que a família estale por todos os lados e não consiga cumprir as suas tarefas. Portanto as igrejas cristãs, ao quererem reforçar a importância da família, durante uma crise económica, estão a agir contra os seus interesses pois estão, na verdade, a contribuir para a sua falência completa.

8. Corroborando a lógica de «mais família natural, mais atraso real», segundo as estatísticas do Ministério da Educação, o número de escolas que, em 2007, era de 12 510 passou a 11 018, em 2011, o que significou uma redução de 1492 locais de ensino em apenas 4 anos (os números incluem estabelecimentos privados). Ora bem, sabendo que desde 2011, os efeitos da crise económica internacional se agravaram em Portugal e que, devido a isso, foram aplicados cortes profundos no orçamento da educação e foram dispensados milhares de professores, é muito provável que o número atual de escolas seja ainda menor; e espera-se que desça ainda mais com a criação de mais mega-agrupamentos. Comparando estes números com os da Igreja Católica que apontavam, em 2010, para um número de 7 258 centros religiosos, isto sem contar com as dezenas de seitas existentes e o aumento de instituições sociais controladas pela igreja, eu pergunto-me se no futuro ainda poderemos continuar a chamar ao estado português de laico.

9. Se vivêssemos num estado efetivamente laico, nunca seria permitido às famílias batizarem os seus filhos sem o consentimento dos mesmos. E aí têm mais uma razão para a Igreja Católica proteger fervorosamente a instituição familiar, ela na realidade representa uma das maiores fontes de novos católicos; pelo menos em número. Mas se as crianças não podem votar por não saberem ler nem escrever porque haverão elas de «votar» no catolicismo sem o saber fazer?

10. Como se vê a crise que atravessamos, além de incrementar a ignorância, o preconceito e o misticismo entre as crianças e os jovens, oferece de mão beijada o domínio da moralidade ao cristianismo, ideologia que nunca, na história recente, foi progressista. Que o digam as mulheres trabalhadoras e a comunidade LGBTQ que continuam a ter a sua vida infernizada graças à constante intervenção da santa trindade, nos seus assuntos pessoais.

11. Para os que não conseguem imaginar um futuro sem família, devo dizer que são ainda mais imaginativos que eu; pois é preciso viver de fadas e anjos para imaginar tal coisa. No entanto, não quero com isto dizer que a família, tal como a conhecemos, irá desaparecer por completo mas que esta, depois de atravessar um processo mais ou menos violento de adaptação a outras «famílias» mais eficientes, deixará de ser a forma hegemónica de organização social.

F. C.
9 de Agosto de 2013
(revisto)

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Cara Lúcia, as pessoas…

… devem estar de férias. Porque, olhando para a forma como as lutas foram conduzidas no último ano, é somente natural que as pessoas estejam terrivelmente cansadas e que agora, com o bom tempo, aproveitem para descansar um pouco; isto quer as pessoas estejam com vontade de continuar a luta, quer estejam profundamente revoltadas com o estado do país ou então desejem a demissão do governo.

As pessoas e os trabalhadores, ou melhor, o povo não é de ferro. Quando se apela às pessoas para saírem à rua, de uma maneira, direi, quase que ditatorial, está a exigir-se das pessoas que quebrem com as suas rotinas, com as seus deveres diários relativos ao trabalho, família, etc. que, pasme-se, são necessários ao bom funcionamento desta sociedade e que se não fossem cumpridos muito dificilmente poderíamos estar aqui a fazer politiquice; então se tivermos isso em conta, de nada vale ficarmos desiludidos pela fraca adesão a uma manif, ou pela indiferença das pessoas em relação à política, pois isso trata-se apenas de um embate com a realidade que raramente corresponde à nossa vontade, um fenómeno que os ativistas políticos sentem na pele, com especial intensidade, em momentos de marasmo social. É certo que tivemos um 15 e um 29 de Setembro, mas esperar sempre uma disponibilidade igual por parte das pessoas não é de todo realista. E se em cima disse que o povo não é de ferro, agora digo que o povo não é um exército; entre o civil e o militar existe uma pequena grande diferença que é: o último é treinado para estar 110% disponível para o combate e não discutir ordens. Pois bem, por outro lado, o povo discute ordens e não vê com bons olhos caciques, mesmo que sejam de esquerda, principalmente se estes não conquistam vitórias depois de estarem milhares na rua para os apoiarem.

Mas a desilusão, da qual a Lúcia é vítima,  não pode ser prevista e evitada? Claro que pode e basta usar uma coisa: inteligência, coisa que aparentemente falta à esquerda deste país. E não é preciso recuar muito para arranjar um exemplo prático disso, basta pegarmos no 1 de Junho. Quem é que no seu perfeito juízo, depois de propor aquele insólito percurso, Campo Grande-Alameda, para uma Manif pela Demissão do governo, esperaria uma boa adesão? Obviamente que ninguém. Ainda para mais, passados três meses depois do 2 de Março. Nessa altura, com tanta gente na rua, era possível fazer tudo! Então porque é que não foi logo marcada outra manif para a semana a seguir? Um verdadeiro mistério. Assim, sinceramente, não é difícil fazer futurologia; nem é difícil dizer porque é que um governo, que mais parece uma criação do dr. Frankenstein, continua a governar. E quem fala do vazio pós-2M, também fala do flashmob matutino de 27 de Novembro ou das penosas romarias a Belém, das quais a última até o sol estava contra os manifestantes. Enfim, tenho à minha disposição tantas situações que explicam o desaparecimento súbito das pessoas que até poderia fazer uma caderneta de cromos com elas. Portanto as pessoas, além de estarem de férias, estão, com certeza, a sofrer de uma tremenda indigestão de tantas falsas manifs condimentadas, em demasia, pelo habitual pedantismo dos tradicionais dirigentes sociais.

E para terminar, da mesma maneira que a Lúcia começou, também vou referir um episódio do Senhor dos Anéis. Como se sabe o Frodo, o portador do anel, precisou da ajuda do seu insignificante jardineiro, Sam, que nos momentos finais teve que o levar às costas até às fornalhas de Mordor para que ele cumprisse a sua missão de salvar a Terra Média. Ora, transpondo a situação para os nossos tempos, são precisamente os Tiagos Castelhanos deste mundo que levam as Lúcias Gomes no bom caminho – às costas se for preciso – pois como se sabe, aqueles que normalmente na História detém o poder, são inúmeras vezes incapazes de o utilizar até à entrada em cena dos pequenos, chatos, mas laboriosos, Sams da vida.

Enfim, camarada Lúcia, já devias saber que luta de classes, reformismo e senhor dos anéis não combinam.

Os anéis fazem desaparecer as pessoas.

Os anéis fazem desaparecer as pessoas.

Em resposta ao artigo «Onde estão as pessoas?» escrito por Lúcia Gomes.

F. C.
27 de Julho de 2013

Verão, seremos a Revolução!

O 15 de Setembro foi um ponto de viragem histórico

O 15 de Setembro foi um ponto de viragem histórico

Contra os reformistas de ontem, contra os oportunistas de hoje, contra os salazaristas de amanhã. O que cresce neste país, ainda que inconscientemente, chama-se Socialismo e não é francês, grego ou alemão, é internacional! Se os tempos não dão tréguas ao otimismo é somente porque a nossa ideia, a nossa luta, lhes mete medo. Muitos discursos iremos ouvir apelidando os trabalhadores portugueses de preguiçosos, incompetentes, ou até intransigentes; de esquecerem os interesses da nação ou de prejudicarem o desenvolvimento da economia. Observações mentirosas, sem fundamento algum, que tentam justificar a construção de um regime semi-fascista, de uma democracia musculada ou de um estado de exceção. Tudo nomes que mascaram a realidade de opressão e exploração desenfreada que se vive neste país, semi-colonizado, onde pobres já nós somos mas agora querem fazer-nos passar por burros. Já dizia o outro: isto anda tudo ligado.

Que todos os trabalhadores tenham consciência que os interesses da nação, para os partidos que nos governam há mais de 30 anos, são os interesses do Banco Central Europeu e do imperialismo franco-alemão. Daí termos entrado nesta União Europeia, daí nos manterem masoquisticamente atrelados a esta Europa medieval. Isto porque os políticos da laia da Merkel não querem a nossa saída do Euro – veja-se o caso da Grécia – porque assim, em vez de nos explorarem, teriam de explorar 300 ou 400 vezes mais a classe trabalhadora alemã. E uma revolta dos trabalhadores alemães não é exatamente a mesma coisa que uma revolta dos trabalhadores portugueses ou espanhóis. Não que sejamos inferiores mas o peso económico dos trabalhadores alemães é também 300 ou 400 vezes mais relevante que o nosso. Uma greve geral na Alemanha afetaria toda a Europa despoletando – aí sim – uma verdadeira Revolução a nível europeu. Por isso, devemos analisar, sempre, as nossas lutas em comparação e tendo em atenção a economia do nosso país.

Que o Brasil e a Turquia são exemplos inspiradores, é inegável, mas não esqueçamos que não somos, nem de perto nem de longe, o Brasil e a Turquia. Pois os trabalhadores brasileiros e turcos encontram-se numa etapa diferente da Revolução Mundial. As tarefas da classe trabalhadora portuguesa são bem mais ambiciosas e determinantes para o Mundo que as exigências democráticas dos povos turco e brasileiro. Aqui luta-se para sair do Euro, lá luta-se contra a construção de um centro comercial; aqui luta-se pelo relançamento da indústria, da agricultura e das pescas, lá luta-se pela estatização do transporte público. Como se vê, são objetivos substancialmente diferentes.

A Greve Geral, de 27 de Junho, é apenas mais um dia de luta e não devemos desanimar se não corresponder às nossas expectativas. Temos todos a noção que esta greve se encontra deslocada no tempo e que devia ter sido marcada logo em Março, depois do 2M. Os trabalhadores devem, portanto, fazer uma crítica profunda ao modo como são marcadas as greves e os protestos. Devem exigir explicações às direções dos seus sindicatos e devem promover discussões pela base onde reine a mais ampla democracia. Quanto a nós, trotskistas portugueses, e restantes ativistas socialistas, cabe-nos a tarefa de mostrarmos o nosso firme apoio às verdadeiras forças de esquerda e sair à rua sempre que seja necessário. (Sair à rua em tempos críticos de redução de produção é mais eficaz que greves. Aprendamos com o povo brasileiro.)

Termino reforçando esta ideia: não podemos desesperar. Não agora, que este país assistiu, no 15 DE SETEMBRO, à maior manifestação de massas desde o PREC (1974-75). Que doutra prova precisamos para considerarmos que a Revolução Mundial voltou à ordem de trabalhos? Com isto em mente, façamos o nosso trabalho de revolucionários socialistas.

Fim dos discursos derrotistas e centristas!

Frente de Esquerda contra a Troika!

Referendo à permanência no Euro!

F. C.
24 de Junho, 2013

A Turquia resiste. Nós resistimos com ela!

Depois de um Camões brasileiro foi a vez de um Rossio turco.

Depois de um Camões brasileiro foi a vez de um Rossio turco

Ontem, 19 de Junho, a Plataforma 15 de Outubro (15O) promoveu, em Lisboa, uma concentração em solidariedade com as lutas do povo turco. Aqui está o texto que foi lido, na praça do Rossio, por uma ativista do 15O:

A Plataforma 15 de Outubro saúda e agradece a presença de todos nesta concentração solidária com as lutas do povo turco contra a tirania e a opressão do governo de Erdogan. O exemplo heróico da juventude turca deixou-nos verdadeiramente emocionados e renovou a nossa esperança na possibilidade de construir um mundo melhor, um mundo onde as praças, todas as praças, sejam sempre símbolos de paz e união entre os povos. A Turquia fez-nos dizer outra vez: É POSSÍVEL! A luta pela democracia e pela liberdade une povos, juventude e trabalhadores. Gezi e Taksim são exemplos disso, esta concentração também.

Porém, a alegria das lutas pela liberdade e pelos direitos cívicos foram manchadas pela atuação de um governo criminoso que, sem mostrar qualquer respeito pela vida humana, e em nome de uma democracia que nem merece esse nome, começou a reprimir, com uma violência irracional e inaudita, os jovens e o povo turco que se manifestavam pacificamente em Istambul, em Ankara e noutras cidades turcas, contra a construção de mais um centro comercial. Pelos vistos, para Erdogan, uma manifestação pacífica é um atentado contra o estado de direito. Um atentado que justifica uma autêntica guerra química contra pessoas inocentes e a detenção arbitrária de ativistas indefesos. Mesmo assim a população turca ousou resistir contra as forças policiais e com isso mostrou, mais uma vez, que a união popular vence todas as barreiras e todas as formas de censura. Por isso estamos solidários com os lutadores turcos. Por isso estamos horrorizados com as mortes provocadas pelos confrontos. Por isso ficámos chocados com o que aconteceu no dia 15 na praça Taksim.

Erdogan, com intuito de restaurar a normalidade, comportou-se como um verdadeiro tirano, e revelou que o dinheiro é para ele mais importante que o seu povo; que o dinheiro é mais importante que as vidas e os sonhos dos homens e mulheres turcos. Erdogan é, no fundo, parecido com o primeiro ministro português, Pedro Passos Coelho, que prefere pagar a dívida dos bancos enquanto priva o povo de trabalho, educação, saúde e cultura e o condena a uma vida indigna de pobreza. É certo que nós sofremos uma agressão de um tipo diferente, daquela usada sobre os ocupantes de Taksim, mas contudo igualmente violenta. Uma agressão que põe em causa as nossas liberdades democráticas, da mesma forma que os gases e os químicos usados pelo Sr. Erdogan ou, como já se ouviu, o sr. Erdogas, põem a causa as do povo turco.

Erdogan, ao invadir a vidas das pessoas com leis que interferem nas suas relações íntimas, devia ter esperado que estas, em protesto, invadissem as praças do seu regime. Nunca esqueceremos as imagens que nos chegaram da Turquia, como a da ponte Bosphorus repleta de milhares de pessoas. Essas imagens, de profundo heroísmo, irão, com certeza, inspirar o povo português nas suas lutas, que serão muitas. Mas já não temos medo porque descobrimos que também somos muitos! Também somos a Grécia, também somos a Espanha, também somos o Brasil e porque o dinheiro não vale tudo. Não pode valer tudo! Nós é que valemos tudo.

Por isso, é com orgulho que a Plataforma 15 de Outubro, volta a dizer: SOMOS TODOS TURCOS!

Agora para terminar queremos, também, avisar que as lutas aqui, tal como na Turquia, continuam e já no próximo dia 27 temos uma Greve Geral que deverá ser contundente na sua mensagem: A Demissão imediata do governo de Paulo Portas e Passos Coelho. Assim apelamos para que passem esta mensagem ao maior número de pessoas, e que compareçam, no dia da Greve Geral, na praça do Rossio às 15 horas para irmos todos até S. Bento. Pois aquele espaço pertence-nos!

19 de Junho

Cinemateca Revolucionária #14: À Procura do Socialismo (1994)

À Procura do Socialismo (1994)

O longo, e decisivo, caminho que os trabalhadores de todo mundo percorrem para se libertarem dos grilhões do capital criminoso e alcançarem o reino da liberdade é feito de lutas constantes, umas vitoriosas outras nem tanto, de revoluções e traições, que têm apenas um único, e final, objetivo: «À Procura do Socialismo». Os trabalhadores, e as demais classes oprimidas e exploradas, vivem continuamente num estado de necessidade, precariedade e de guerra porque estão submetidos a um poder que, muito longe de os representar, os oprime e explora. Este cenário, incontestável e visível diariamente, é resumido numa, simples e inteligente, pergunta feita por um jornalista em resposta à expressão infeliz de um trabalhador que diz querer uma democracia às direitas.

«Uma democracia às direitas ou uma democracia às esquerdas?»

Isto remete-nos às primeiras reflexões, sobre como libertar os trabalhadores e a sociedade, feitas pelos primeiros socialistas, chamados utópicos, como Charles Fourier, Saint-Simon e Proudhon onde Antero de Quental foi beber a inspiração. A ideia do socialismo há muito que atormenta o pensamento dos lutadores sociais conscientes de que o capitalismo «já deu o que tinha a dar», porém ninguém sabia ao certo como proceder para criar a nova sociedade. Felizmente havia uma ideia consensual: só os trabalhadores poderiam construí-la; a obra de Karl Marx e a experiência de governo operário, durante a Comuna de Paris, vieram comprová-lo.

Formaram-se então dezenas de partidos socialistas e democráticos, a chamada social-democracia, e constituíram-se os primeiros sindicatos de trabalhadores – isto porque já haviam sindicatos, mas de patrões. Em 1890, comemora-se, pela 1ª vez o Dia Internacional do Trabalhador; em 1914, é criada, na cidade de Tomar, a primeira central sindical portuguesa: a União Operária Nacional; e em 1917, o Partido Operário Social-Democrata Russo (bolchevique) realiza a primeira revolução operária da História. A marcha gloriosa da história levou os trabalhadores ao poder e com a vitória na Rússia, ninguém podia questionar a força da classe trabalhadora quando esta está unida, organizada e dirigida por um partido revolucionário. Esta vitória serviu de aviso para a burguesia, possuidora e capitalista, que rapidamente entendeu que teria de esmagar e destruir todas as formas de organização operárias, pois elas representavam uma força inimiga, um entrave aos seus planos de dominação mundial (imperialista) e um perigo real à sua existência como classe. O resultado prático desta reação histérica da classe dominante foi o reforço do chamado capitalismo de estado, que atingiu o seu expoente máximo sob os regimes fascistas, tudo para combater o avanço da classe trabalhadora vitoriosa, inspirada pela Revolução Operária na Rússia. A História deu um nome a este período contra-revolucionário: 2ª Guerra Mundial.

«Uma divisão mundial de trabalho feita pela burguesia é feita do seguinte modo: tu trabalhas, eu não. Só os trabalhadores poderão proceder a uma divisão justa do trabalho.»

Dito e feito. A burguesia fez a sua divisão, matou milhões de trabalhadores e travou o avanço da revolução socialista mundial. Do estado operário revolucionário russo, que estagnou com a derrota do movimento operário internacional, só sobreviveu o  seu aparato burocrático controlado pela nova aristocracia comunista (estalinista).

No entanto, apesar do triunfo do capitalismo, a energia e a resiliência da classe trabalhadora é inesgotável. A classe trabalhadora, intimamente ligada ao desenvolvimento da economia capitalista, está sempre em movimento e quando se mexe consegue transformar toda a sociedade, muito mais do que qualquer grande investimento ou guerra imperialista. Se nada acontece atualmente é simplesmente porque a sua direção a mantém dentro do legalismo burguês. O pacifismo, o compromisso e a responsabilidade social, sob um regime capitalista, só favorecem o patrão e nada mais que o patrão. As direções paternalistas, que olham do alto dos seus palanques para a classe trabalhadora, devem ser questionadas da mesma maneira que questionamos incessantemente o governo, pois muitos dos sindicatos atuais tornaram-se correias de transmissão do patronato e do poder financeiro. Mas?… A resposta é: Nem Deus, nem Senhores. Daí os trabalhadores portugueses terem escolhido seguir, durante muito tempo, líderes anarco-sindicalistas que se mostravam mais ousados e combativos que os seus congéneres socialistas. Todavia a ousadia anarquista, descentralizada, sempre que embatia contra o poder centralizado do estado, era facilmente esmagada; por isso há que considerar positiva a evolução para centrais sindicais de índole socialista que reforçaram a solidariedade e o poder reivindicativo da classe em geral. Falta, contudo, uma direção verdadeiramente socialista e revolucionária e foi o que faltou em 1974.

Eis que neste pequeno país estala uma revolução, operária e popular, deitando por terra todos os sonhos dos capitalistas portugueses. A história é simplesmente contundente: o Trabalhador e o Burguês são inimigos mortais; o 25 de Abril, e o seu processo revolucionário (PREC), são dos exemplos mais notáveis dessa luta mortal de classes e de como o ascenso do povo trabalhador nos leva inevitavelmente ao Socialismo. Padres, intelectuais, lojistas, democratas foram todos obrigados a conformar-se com isso. Ora vejamos o que diziam os atuais partidos parlamentares durante o PREC:

Francisco Sá Carneiro (PSD): Para nós socialismo é o caminho da libertação plena do homem. Valorização integral da pessoa, libertação de toda a alienação, exploração e opressão.

Francisco Salgado Zenha (PS): A proposta que o partido socialista faz, a proposta do socialismo em liberdade, é a única que, a nosso entender, pode constituir uma solução de esquerda para os problemas do povo português.

Álvaro Cunhal (PCP): É uma exigência, primeira e prévia, para a possibilidade de ser formado um governo voltado, efetivamente, para a construção do socialismo; que os trabalhadores sintam essa perspetiva e comecem a intervir, não apenas na vida política mas na vida social e na vida económica de maneira a possibilitar essa perspetiva de um governo revolucionário. Enfim, voltado e determinado a assegurar a construção do socialismo no nosso país.

Freitas do Amaral (CDS-PP): Por nossa parte consideramos muito importante, e imprescindível, o contributo que a ação dos partidos socialistas exerceram no último meio século para a humanização das condições de vida dos trabalhadores. Mas segundo a nossa conceção de vida, todos os homens são iguais e profundamente solidários. Também nós, por isso, desejamos sinceramente atingir um dia o ideal da sociedade sem classes.

Reparem no teor idealista do comentário do dirigente do PCP. O célebre comunista pede aos trabalhadores para, numa sociedade burguesa, começarem a construir o socialismo, como se bastasse a boa vontade e a democracia para construir uma nova ordem económica – veja-se o processo de implantação do capitalismo na Inglaterra, onde os pequenos proprietários rurais foram expulsos violentamente das suas terras para serem obrigados a trabalharem nas fábricas; como se fosse possível construir alguma coisa enchendo diariamente os bolsos ao patrão, que utilizará o dinheiro para explorar ainda mais o trabalhador. As únicas pessoas que conseguem construir/destruir, nesta sociedade, são aqueles que detêm a posse dos meios de produção, ou seja os capitalistas. O mesmo se aplica à democracia parlamentar atual que, estando subordinada ao poder económico-financeiro, só aprova o que dá jeito ao banqueiro e ao empresário enquanto deixa umas migalhitas para os trabalhadores continuarem vivos. O amor de Álvaro Cunhal à democracia, todo o respeito à sua obra, ficaria bem junto de Antero de Quental e do grupo de socialistas utópicos portugueses.

Mas como vemos hoje, com os seus atos e políticas, era só conversa. O que não é de espantar se analisarmos as classes que os partidos representam. Porque a defesa da propriedade privada, da democracia parlamentar e do estado burguês (tribunais, bancos, escolas, polícia, igrejas, etc.), significa a perpetuação do capitalismo, da exploração, da fome, da miséria e dos FMIs. Não esqueçamos que já é terceira vez que chamam essa organização internacional de ladrões para resolver «crises».

Todavia, estas declarações provam que, perante um ascenso revolucionário de massas, os setores mais reacionários da sociedade, representados pelos seus partidos, podem discursar à esquerda e até apresentar propostas revolucionárias, que neste caso é – pasme-se (!): a construção de uma sociedade sem classes. É caso para dizer que, durante o PREC, a classe dominante estava toda tonta e decerto com a garganta seca de tanta mentira. Portanto não é de espantar, ao olharmos para a situação de crise atual, vermos os marcelos, os paulinhos e os inseguros completamente desorientados com ressurgimento do movimento operário, ainda que tímido, e das movimentações de massas nas ruas, porque eles sabem o que isto significa. Significa que vivemos um pré-PREC; e estes senhores não têm vontade de meter os seus partidos a falar novamente em socialismo e numa sociedade sem classes.

Os trabalhadores portugueses andam perdidos mas no fundo estão todos «À Procura do Socialismo». E este documentário, de 1994, é essencial para todos aqueles que se sentem afetados por esta crise que, segundo a teoria trotskista, é a crise final e fundamental do capitalismo e só será superada pela destruição do estado que a fomenta e a mantém, o estado capitalista burguês.

F. C.
26 de Maio, 2013

Cinemateca Revolucionária #13: Deus, Pátria e Autoridade, de Rui Simões (1976)

«Deus, Pátria e Autoridade», de Rui Simões  (1976)

Neste filme, feito em jeito de rescaldo do PREC, Rui Simões, autor do documentário «Bom Povo Português», oferece-nos uma visão crítica, e consciente, da história da luta de classes em Portugal desde a envergonhada Revolução Republicana de 1910 até à Revolução Operária e Popular de Abril de 1974.

«De um lado trabalhadores que produzem , e vivem mal, do outro lado patrões que nada produzem, e vivem bem. Isto acontece porque Portugal é um país capitalista.»

A frase, em cima, expressa bem a visão marxista e de classe que Rui Simões impõe ao seu filme. Estando ciente das contradições inerentes a qualquer período revolucionário, o realizador teve o cuidado de desmascarar o papel das direções oportunistas e reformistas que lideraram o movimento operário durante o PREC e o levaram para um beco sem saída. Estas direções, que impondo às classes trabalhadoras medidas e soluções colaboracionistas, defenderam conscientemente os interesses da burguesia nacional e internacional que pretendia esmagar a revolução a todo o custo; e com isso conseguiram travar as massas que ocupavam as ruas e as fábricas à procura de um caminho para uma sociedade justa, solidária e igualitária: uma sociedade socialista.

Como não poderia deixar de acontecer, o resultado desta traição permitiu a construção de um estado burguês, com uma democracia parlamentar burguesa e uma Assembleia da República onde capitalistas, oportunistas e burocratas se representam a si próprios, em vez de representarem quem os elegeu, e decidem «democraticamente» a sua fatia do bolo, ou seja a mais valia roubada do trabalho das classes exploradas. E tal como acontecia no regime fascista de Salazar e Caetano, e acontece hoje com o regime de PS, PSD e CDS-PP, a democracia que existe é de fachada e só serve para enganar os mais incautos e servir os patrões, como narra Rui Paulo da Cruz:

«O fascismo não cai nem os patrões vergam com eleições.»

Rui Simões também não esquece a guerra e mostra-nos o passado colonialista português e a vergonha dos que defendiam uma África «nossa», contra a vontade das massas de trabalhadores africanos que lutavam pela independência do seu povo e pelo fim da guerra. «Deus, Pátria e Autoridade» é uma obra essencial para um entendimento, mais profundo, das causas da derrota do ascenso revolucionário do proletariado português e da vitória da ofensiva contra-revolucionária desencadeada pela burguesia, adjuvada pelas direções oportunistas e reformistas, cujas criminosas consequências sentimos hoje.

F. C.
20 de Maio, 2013

Hoje comemora-se o 195º aniversário do nascimento de Karl Marx

Karl Marx nasceu a 5 de Maio de 1818.

Karl Marx nasceu a 5 de Maio de 1818.

Viva Karl Marx!

O pensador revolucionário alemão, que escreveu «O Capital», nasceu hoje, no ano de 1818. Karl Marx foi o fundador da primeira organização Internacional de trabalhadores da história, a Associação Internacional de Trabalhadores, e escreveu, juntamente com Friedrich Engels, o Manifesto Comunista.

K. Marx ao analisar o funcionamento perverso da economia capitalista identificou que esta só é capaz de sobreviver através de violentas crises cíclicas e da super exploração dos trabalhadores, e que este modelo económico só será superado por uma união mundial da classe trabalhadora, maioritária e internacionalista, que faça frente aos estados que protegem os inquestionáveis mercados. Daí a famosa frase: «Proletários de todos os países, Uni-vos!».

No dia do 195º aniversário do seu nascimento, podemos dizer que o pensamento revolucionário de Karl Marx continua vivo e a inspirar os milhões de revolucionários, que por todo o mundo, lutam contra as Troikas de banqueiros, patrões e burocratas que querem obrigar os trabalhadores a pagarem dívidas que não foram contraídas em seu benefício.

E a todos os que nos impingem a ladainha do fim da história, a isso, nós, marxistas, respondemos: «Mas o que importa é transformar o mundo!».

A Revolução continua e o pensamento marxista é a sua bandeira universal! Venceremos.

F. C.
5 de Maio, 2013