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Algumas notas sobre a família (revisto)

Agosto 11, 2013

1. O fim da hegemonia da família tradicional, homem, mulher e criança(s), só poderá trazer uma melhoria real nas condições de vida e no bem-estar das crianças e da sociedade em geral. O fim dessa organização social, claramente ultrapassada pelo desenrolar da economia e da tecnologia, permitirá, finalmente, pensar a educação das camadas mais jovens da humanidade sem estarmos condicionados pelas rígidas, e algo limitadas, paredes da vida familiar.

2. Se analisarmos as nossas experiências pessoais, chegaremos à conclusão que a família atua, quase sempre, como uma fortaleza de conservadorismo e atraso social; é ela, e não a sociedade, que normalmente impõe barreiras ao desenvolvimento intelectual das crianças e dos jovens, e com isso deita-se a perder gerações inteiras de homens e mulheres que não farão mais do que perpetuar uma organização social caduca, ineficiente e incapaz de resolver, por si, os seus problemas internos. Só assim se explica a proliferação de conselheiros matrimoniais, consultórios de psicologia/psiquiatria, igrejas e todo um conjunto de serviços, que existem unicamente para salvar a família tradicional do seu previsível desaparecimento.

3. A juventude ganharia imenso com o fim da família pois poderia aproveitar essa etapa preciosa da sua vida para estudar, viajar, aprender livremente com os seus erros e divertir-se à séria, sem passar metade do seu tempo em crises depressivas e a tentar explicar, aos exclusivos patrões da sua vida, necessidades e desejos que inexplicavelmente os pais parecem não compreender; como se a passagem para a vida adulta os tivesse tornado amnésicos. O fim da família também eliminaria a triste simulação, sempre com maus resultados, por parte dos jovens das relações amorosas dos adultos, isto porque, como se sabe, os adolescentes não lidam bem com as contradições que abundam nas relações entre homens e mulheres adultos; e é precisamente isso que os incita à rebeldia: a incapacidade de conciliarem opiniões contrárias à sua.

4. É ponto assente que a propriedade privada é um entrave ao desenvolvimento económico, pois bem, também a família o é e como tal deve ser socializada. Com a socialização da família evitar-se-iam as tragédias do abandono escolar precoce e a impossibilidade de continuação dos estudos universitários, provocadas por o estudante possuir uma família irresponsável ou simplesmente incapaz de financiar a educação dos filhos, porque a educação das novas gerações seria, efetivamente e não apenas no papel, do interesse de toda a sociedade; acabavam-se também os bancos parasitários que se aproveitam da desgraça dos jovens para lhes oferecerem uma «mãozinha». O fim da família significaria, muito provavelmente, o início da educação gratuita e de qualidade para todos.

5. Se a família é uma instituição ultrapassada, então também o são os exércitos, os estados, as igrejas e outras instituições que operam em princípios idealizados durante os séc. XVIII e anteriores. Diderot escreveu sobre a vida escandalosa dos conventos, Balzac sobre a comédia da vida conjugal, Zola sobre a promiscuidade da burguesia, Eça sobre a mesquinhez da família pequeno-burguesa, Sartre e Simone sobre a incapacidade das classes médias terem uma vida normal e hoje, nas telenovelas, presenciamos a perpetuação dessa caricatura que é a vida familiar, uma autêntica paródia que toda a gente, apesar de a ver, acha no mínimo ridícula. Perante tais evidências ainda têm a desfaçatez de dizer que a família, como núcleo social, funciona? Isto para não falar nas famílias reais que se tornaram antros de escândalo, corrupção e de incompetência governativa.

6. Ao mantermos a organização familiar nuclear, protegida e incentivada pelo estado, estamos somente a perpetuar o atraso económico e a fomentar partidos de ideologia duvidosa que promovem missas à frente do parlamento quando existem lugares, com todas as condições, para os praticantes do catolicismo realizarem os seus ritos sem incomodarem os demais cidadãos e trabalhadores.

7. Encontrei numa das inúmeras revistas de propaganda cristã que o mal que assola este mundo deve-se ao desrespeito à família e às instituições. Permitam-me que discorde. O que está mal na sociedade é não existirem creches públicas de qualidade e gratuitas, não existirem ATLs e não existir um serviço pleno de apoio à maternidade/paternidade; o que está mal é as igrejas terem melhores condições que muitas escolas, e os hospitais públicos fecharem dificultando assim o cumprimento do direito ao aborto; o que está mal é varrerem do mapa os apoios à família como o abono familiar. Ou seja, na prática, em vez de avançarmos para a frente, reforçando os meios de auxílio à família, recuamos, eliminando-os. Assim, não é de admirar que a família estale por todos os lados e não consiga cumprir as suas tarefas. Portanto as igrejas cristãs, ao quererem reforçar a importância da família, durante uma crise económica, estão a agir contra os seus interesses pois estão, na verdade, a contribuir para a sua falência completa.

8. Corroborando a lógica de «mais família natural, mais atraso real», segundo as estatísticas do Ministério da Educação, o número de escolas que, em 2007, era de 12 510 passou a 11 018, em 2011, o que significou uma redução de 1492 locais de ensino em apenas 4 anos (os números incluem estabelecimentos privados). Ora bem, sabendo que desde 2011, os efeitos da crise económica internacional se agravaram em Portugal e que, devido a isso, foram aplicados cortes profundos no orçamento da educação e foram dispensados milhares de professores, é muito provável que o número atual de escolas seja ainda menor; e espera-se que desça ainda mais com a criação de mais mega-agrupamentos. Comparando estes números com os da Igreja Católica que apontavam, em 2010, para um número de 7 258 centros religiosos, isto sem contar com as dezenas de seitas existentes e o aumento de instituições sociais controladas pela igreja, eu pergunto-me se no futuro ainda poderemos continuar a chamar ao estado português de laico.

9. Se vivêssemos num estado efetivamente laico, nunca seria permitido às famílias batizarem os seus filhos sem o consentimento dos mesmos. E aí têm mais uma razão para a Igreja Católica proteger fervorosamente a instituição familiar, ela na realidade representa uma das maiores fontes de novos católicos; pelo menos em número. Mas se as crianças não podem votar por não saberem ler nem escrever porque haverão elas de «votar» no catolicismo sem o saber fazer?

10. Como se vê a crise que atravessamos, além de incrementar a ignorância, o preconceito e o misticismo entre as crianças e os jovens, oferece de mão beijada o domínio da moralidade ao cristianismo, ideologia que nunca, na história recente, foi progressista. Que o digam as mulheres trabalhadoras e a comunidade LGBTQ que continuam a ter a sua vida infernizada graças à constante intervenção da santa trindade, nos seus assuntos pessoais.

11. Para os que não conseguem imaginar um futuro sem família, devo dizer que são ainda mais imaginativos que eu; pois é preciso viver de fadas e anjos para imaginar tal coisa. No entanto, não quero com isto dizer que a família, tal como a conhecemos, irá desaparecer por completo mas que esta, depois de atravessar um processo mais ou menos violento de adaptação a outras «famílias» mais eficientes, deixará de ser a forma hegemónica de organização social.

F. C.
9 de Agosto de 2013
(revisto)

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