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Cara Lúcia, as pessoas…

Julho 27, 2013

… devem estar de férias. Porque, olhando para a forma como as lutas foram conduzidas no último ano, é somente natural que as pessoas estejam terrivelmente cansadas e que agora, com o bom tempo, aproveitem para descansar um pouco; isto quer as pessoas estejam com vontade de continuar a luta, quer estejam profundamente revoltadas com o estado do país ou então desejem a demissão do governo.

As pessoas e os trabalhadores, ou melhor, o povo não é de ferro. Quando se apela às pessoas para saírem à rua, de uma maneira, direi, quase que ditatorial, está a exigir-se das pessoas que quebrem com as suas rotinas, com as seus deveres diários relativos ao trabalho, família, etc. que, pasme-se, são necessários ao bom funcionamento desta sociedade e que se não fossem cumpridos muito dificilmente poderíamos estar aqui a fazer politiquice; então se tivermos isso em conta, de nada vale ficarmos desiludidos pela fraca adesão a uma manif, ou pela indiferença das pessoas em relação à política, pois isso trata-se apenas de um embate com a realidade que raramente corresponde à nossa vontade, um fenómeno que os ativistas políticos sentem na pele, com especial intensidade, em momentos de marasmo social. É certo que tivemos um 15 e um 29 de Setembro, mas esperar sempre uma disponibilidade igual por parte das pessoas não é de todo realista. E se em cima disse que o povo não é de ferro, agora digo que o povo não é um exército; entre o civil e o militar existe uma pequena grande diferença que é: o último é treinado para estar 110% disponível para o combate e não discutir ordens. Pois bem, por outro lado, o povo discute ordens e não vê com bons olhos caciques, mesmo que sejam de esquerda, principalmente se estes não conquistam vitórias depois de estarem milhares na rua para os apoiarem.

Mas a desilusão, da qual a Lúcia é vítima,  não pode ser prevista e evitada? Claro que pode e basta usar uma coisa: inteligência, coisa que aparentemente falta à esquerda deste país. E não é preciso recuar muito para arranjar um exemplo prático disso, basta pegarmos no 1 de Junho. Quem é que no seu perfeito juízo, depois de propor aquele insólito percurso, Campo Grande-Alameda, para uma Manif pela Demissão do governo, esperaria uma boa adesão? Obviamente que ninguém. Ainda para mais, passados três meses depois do 2 de Março. Nessa altura, com tanta gente na rua, era possível fazer tudo! Então porque é que não foi logo marcada outra manif para a semana a seguir? Um verdadeiro mistério. Assim, sinceramente, não é difícil fazer futurologia; nem é difícil dizer porque é que um governo, que mais parece uma criação do dr. Frankenstein, continua a governar. E quem fala do vazio pós-2M, também fala do flashmob matutino de 27 de Novembro ou das penosas romarias a Belém, das quais a última até o sol estava contra os manifestantes. Enfim, tenho à minha disposição tantas situações que explicam o desaparecimento súbito das pessoas que até poderia fazer uma caderneta de cromos com elas. Portanto as pessoas, além de estarem de férias, estão, com certeza, a sofrer de uma tremenda indigestão de tantas falsas manifs condimentadas, em demasia, pelo habitual pedantismo dos tradicionais dirigentes sociais.

E para terminar, da mesma maneira que a Lúcia começou, também vou referir um episódio do Senhor dos Anéis. Como se sabe o Frodo, o portador do anel, precisou da ajuda do seu insignificante jardineiro, Sam, que nos momentos finais teve que o levar às costas até às fornalhas de Mordor para que ele cumprisse a sua missão de salvar a Terra Média. Ora, transpondo a situação para os nossos tempos, são precisamente os Tiagos Castelhanos deste mundo que levam as Lúcias Gomes no bom caminho – às costas se for preciso – pois como se sabe, aqueles que normalmente na História detém o poder, são inúmeras vezes incapazes de o utilizar até à entrada em cena dos pequenos, chatos, mas laboriosos, Sams da vida.

Enfim, camarada Lúcia, já devias saber que luta de classes, reformismo e senhor dos anéis não combinam.

Os anéis fazem desaparecer as pessoas.

Os anéis fazem desaparecer as pessoas.

Em resposta ao artigo «Onde estão as pessoas?» escrito por Lúcia Gomes.

F. C.
27 de Julho de 2013

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One Comment
  1. Lúcia Gomes permalink

    Certamente, reformismos não serão comigo. Compreendo e concordo com muito do que aqui está escrito, mas não são os Tiagos Castelhanos que carregam os Frodos. Os que carregam a luta são invisíveis nos blogues e nas televisões. São os trabalhadores, os desempregados, os estudantes, que estão demasiado preocupados com a sua sobrevivência do que propriamente se a manifestação é em S. Bento ou na Alameda.
    E esses são os únicos que interessam.
    Mas disso, quem se preocupa com percursos e pseudo acções directas está bem longe.
    Eu não sou vítima de nada, apenas anseio (por que também já ando nisto há muito tempo, nas lutas colectivas, mas também nas individuais), que seja o povo a avançar sobre os seus carrascos.
    Não sabia que esta vontade podia causar tanto mal estar.

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