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Era uma vez na Rússia Soviética: Comités de Fábrica

Janeiro 7, 2013

Quando a revolução de Março estourou, os proprietários e administradores de várias fábricas fugiram ou foram expulsos pelos trabalhadores, principalmente nas fábricas do governo, onde os trabalhadores sofriam nas mãos de burocratas irresponsáveis nomeados pelo Czar. Sem superintendentes, supervisores e, em muitos casos, engenheiros e contabilistas, os trabalhadores encontraram-se frente à alternativa de manter a fábrica a funcionar ou a morrer de fome. Um comité foi eleito, um delegado de cada seção ou departamento, para dirigir a fábrica. É claro que no começo esse plano parecia absurdo. As funções dos diferentes departamentos até poderiam ser coordenadas dessa forma, mas a falta de conhecimentos técnicos dos trabalhadores produziram resultados grotescos.

Finalmente, houve uma reunião do comité numa das fábricas, onde um trabalhador se levantou e disse:

“Camaradas, por que precisamos nos preocupar? A questão do conhecimento técnico não é difícil. Lembremo-nos que o patrão não era um expert, ele não conhecia nada de engenharia ou química ou contabilidade. Tudo que ele sabia era ser dono. Quando ele queria ajuda técnica, contratava gente para fazer isso para ele. Bem, nós agora somos os patrões. Vamos contratar engenheiros, contadores e eles vão trabalhar para nós!”

Nas fábricas do governo, o problema era relativamente mais simples, já que a Revolução automaticamente removeu o “patrão” que nunca foi substituído. Mas quando os Comités de Fábrica se espalharam para as empresas privadas, foram violentamente atacados pelos seus donos, cuja maioria tinha acordos com os sindicatos.

Nas indústrias privadas, também, os comités de fábrica eram um produto da necessidade. Depois dos três primeiros meses da Revolução, durante a qual as organizações da classe média e do proletariado trabalharam em conjunto numa harmonia utópica, os capitalistas industriais começaram a ficar com medo do poder crescente e da ambição das organizações dos trabalhadores – assim como os latifundiários tinham medo dos Comités da Terra e os oficiais dos Comités e Sovietes dos soldados. Durante a primeira parte de Junho, começou uma campanha mais ou menos consciente de toda a burguesia que visava acabar com a revolução e quebrar as organizações democráticas. Começando com os Comités de Fábrica, os patrões planeavam fazer uma limpeza geral, incluindo os sovietes. O exército estava desorganizado; suprimentos, munições e comida eram desviados; e havia até muita traição em favor dos alemães – como em Riga. No interior, os camponeses eram convencidos a esconder os grãos ou eram provocados por desordeiros, o que servia como desculpa para os Cossacos “restaurarem a paz”. E, na indústria, o setor mais importante de todos, as máquinas e a operação das fábricas eram sabotadas, o transporte eram atacado e as minas de carvão, de metais e de matéria-prima eram danificadas o máximo possível. Todos os esforços eram feitos para fechar as fábricas e forçar os trabalhadores a voltar à posição de submissão do antigo regime.

Assim, os trabalhadores eram forçados a resistir. Os Comités de Fábrica se espalharam e ganharam força. No começo, é claro, os trabalhadores russos cometiam erros absurdos, como já foi contado muitas vezes. Eles exigiam salários impossíveis – tentavam realizar processos fabris complicados sem a experiência necessária; em alguns casos, chegaram a pedir o retorno dos seus patrões. Mas tais casos eram minoritários. Na grande maioria das fábricas, os trabalhadores tinham recursos suficientes para conseguir conduzir a empresa sem patrões.

Os proprietários tentaram falsificar os livros de contabilidade para esconder pedidos, o Comité de Fábrica era forçado a encontrar formas de controlar os livros. Os proprietários também tentavam roubar os produtos – tanto que o comité precisou criar a regra de que nada deveria entrar ou sair da fábrica sem a devida permissão. Quando a fábrica ficou ameaçada de fechar por falta de combustível, matéria-prima ou pedidos, o Comité de Fábrica teve que mandar homens por toda a Rússia até às minas, ou até o Cáucaso em busca de petróleo, e para a Criméia para conseguir algodão; e vários agentes foram enviados pelos trabalhadores para tentar vender os produtos. Com o colapso das estradas de ferro, os agentes do Comité tiveram que entrar em acordo com o sindicato dos ferroviários para o transporte de mercadorias. Para evitar os fura-greves, o comitê passou a controlar a contratação e a demissão dos trabalhadores. O Comité de Fábrica foi criado pela situação anárquica da Rússia, forçados pela necessidade de aprender a dirigir as indústrias, assim quando chegou o momento, os trabalhadores russos conseguiram tomar o controle da situação com pouco atrito.

Para exemplificar como as massas trabalharam juntas, podemos citar os 200 mil poods de carvão que foram tomados dos bunkers da frota báltica em Dezembro e entregues pelo comités de marinheiros para manter as fábricas de Petrogrado funcionando durante o período de escassez do produto. A Obukhov era uma fábrica metalúrgica que produzia suprimentos para a Marinha. O presidente do comité da fábrica era um russo-americano, chamado Petrovsky, muito conhecido aqui por ser anarquista. Um dia, o supervisor do departamento de torpedos falou para Petrovsky que o departamento teria que fechar porque não estavam a conseguir arranjar os tubos pequenos usados na produção dos torpedos. Os tubos eram feitos por uma fábrica do outro lado do rio, cujos produtos eram pedidos com três meses de antecedência. O fecho do departamento de torpedos significaria que quatrocentos homens ficariam sem trabalho.

– Eu vou conseguir os tubos, disse Petrovsky.

Ele foi diretamente à fábrica de tubos, onde, ao invés de falar com o gerente, procurou o presidente do Comité de Fábrica. “Camarada”, disse, “se não conseguirmos os tubos em dois dias, o nosso departamento de torpedos terá que fechar e quatrocentos rapazes ficarão sem emprego”. O presidente chamou os responsáveis pelos pedidos e descobriu que alguns milhares de tubos tinham sido pedidos por três fábricas privadas na vizinhança. Ele e Petrovsky, então, visitaram essas três fábricas e conversaram com os presidentes dos Comités. Descobriram, em duas dessas fábricas, que os tubos não eram necessários imediatamente. No dia seguinte, as peças foram entregues a Obukhov e o departamento de torpedos não precisou ser fechado.

Em Novgorod, havia uma fábrica têxtil. No início da revolução, o dono pensou: “Aqui vem problema. Não poderei lucrar enquanto durar esta revolução. Vou fechar a fábrica até que tudo tenha passado”. Ele, então, fechou a fábrica e junto com os funcionários administrativos, químicos, engenheiros e gerentes, apanhou o comboio para Petrogrado. Na manhã seguinte, os trabalhadores abriram a fábrica.

Esses trabalhadores eram, talvez, um pouco mais ignorantes do que a média. Eles não sabiam nada sobre os processos técnicos de manufatura, contabilidade e gerenciamento ou de vendas.

Elegeram um Comité de Fábrica e descobriram uma certa quantidade de combustível e matéria-prima estocada, podendo, assim, iniciar a fabricação de roupas de algodão. Sem saber o que era feito com a roupa depois de fabricada, eles primeiro guardaram o suficiente para as suas famílias. Depois, por terem alguns teares avariados, enviaram um delegado a uma empresa de conserto de máquinas dizendo que dariam roupas em troca de assistência técnica. Feito isso, fizeram um acordo com a Cooperativa local, trocando roupas por comida. Eles ampliaram o esquema chegando a trocar roupas por combustível com o mineiros de Kharkov e por transporte com o sindicato de ferroviários.

Mas, finalmente, tinham abarrotado o mercado com roupas de algodão e se depararam com uma demanda que as roupas não poderiam satisfazer – a renda. Eram os dias do Governo Provisório, quando ainda existiam senhorios. A renda tinha que ser paga em dinheiro. Assim, eles carregaram uma carruagem com roupas e mandaram, sob a responsabilidade de um membro do Comité, para Moscovo. Quando ele chegou à estação, foi até uma loja de alfaiates e perguntou se eles precisavam de roupas.

– Quanto?, perguntou o alfaiate.

– Uma carruagem cheia, respondeu o membro do comité.

– Quanto custa?

– Não sei. Quanto costuma pagar pelas roupas?

O alfaiate conseguiu a roupa por muito pouco e o trabalhador, que nunca tinha visto tanto dinheiro de uma só vez, voltou a Novgorod muito feliz. O comité de fábrica tinha calculado, com base na produção média, por quanto eles precisavam vender o excesso de produção para conseguir dinheiro suficiente para pagar a renda de todos os trabalhadores!

Assim por toda a Rússia, os trabalhadores aprenderam os fundamentos da produção industrial e até da distribuição, de modo que quando a revolução de Novembro aconteceu, eles conseguiram adaptar-se ao controlo operário da indústria.

Foi em junho de 1917 que aconteceu a primeira reunião dos delegados dos comités de fábrica. Nesse momento, os comités já tinham se espalhado para além de Petrogrado. Foi uma reunião inesquecível, composta de delegados de base, a maioria deles bolcheviques, muitos anarco-sindicalistas. E a reunião acabou tomando a forma de um protesto contra as táticas dos sindicatos. Na arena política, os bolcheviques defendiam que nenhum socialista deveria ter o direito de participar no governo de coligação com a burguesia. O encontro dos delegados de fábrica tomou a mesma atitude em relação à indústria. Em outras palavras, a classe empresarial e os trabalhadores não tinham interesses em comum; nenhum trabalhador consciente pode ser membro de um tribunal de arbitragem ou conciliação a não ser para informar os patrões das demandas dos trabalhadores. Nenhum contrato entre patrões e trabalhadores. A produção industrial deve ser controlada totalmente pelos trabalhadores.

No começo, os sindicatos combateram os Comités de Fábrica. Mas estes, que tinham controlo do coração da indústria, ampliaram e consolidaram o seu poder com facilidade. Vários trabalhadores não viam a necessidade de se afiliar a um sindicato, mas todos viam a necessidade de participar nas eleições dos comités de fábrica, que controlavam o seu emprego. Por outro lado, os comités reconheciam a importância dos sindicatos – nenhum trabalhador novo era empregado se não fosse filiado. Eram os comités que aplicavam localmente as regulamentações dos diferentes sindicatos. No momento, os sindicatos e os comités de fábrica trabalham em perfeita harmonia, cada um em seu lugar.

Fonte A Estrutura do Sistema Soviético, de John Reed

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