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“Os portugueses não vivem acima das suas possibilidades”

Junho 24, 2012

(…)

A direita, ao referir que os portugueses vivem acima das suas possibilidades, remete sistematicamente esse delirante facto para os elevados salários dos trabalhadores e, igualmente, para o défice comercial.

Quanto ao argumento dos salários, o Avante! tem, repetidamente, divulgado elementos estatísticos comprovando a existência de salários de miséria entre nós e salientado que o que existe é uma profunda e errada distribuição da riqueza criada em Portugal, país campeão da diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres. 

Quanto à diferença entre aquilo que compramos aos estrangeiros e aquilo que lhes vendemos sugerimos uma análise ao nosso comércio internacional.

Os dados disponíveis pelo Instituto Nacional de Estatística são recentes e referem-se a 2011. Tendo como referência a nomenclatura “CAE-REV.3” constata-se que o nosso País comprou no estrangeiro mercadorias no valor global de 57 730 milhões de euros.

Os principais produtos foram:
– Petróleo e gás natural: 7339 milhões de euros;
– Veículos automóveis e seus componentes: 5533 milhões de euros;
(…)
– Produtos alimentares (provenientes da agricultura e da produção animal): 2675 milhões de euros;
(…)
– Calçado e produtos da indústria de couro: 1066 milhões de euros.

Estes 18 sectores representam 91% do total das mercadorias que tivemos de comprar no estrangeiro.

Tais dados merecem a sua reflexão porque, pela sua expressividade, é nesta área industrial que deve ser discutido aquilo que deve integrar o nosso modelo de desenvolvimento. Esta estatística diz-nos que o dispêndio na compra de petróleo bruto, gás natural e produtos petrolíferos refinados custou ao país a significativa verba de 9548 milhões de euros.

Mas aquela estatística também diz esta coisa de pasmar: importámos produtos alimentares (não incluindo as pescas e a agricultura) no valor de 8122 milhões de euros.

Outro dado para meditar: não obstante a nossa capacidade instalada na área do têxtil, do vestuário e do calçado, importámos nestes sectores, mercadorias no valor global de 4138 milhões de euros, verba provavelmente associada à poderosa influência da publicidade para que os consumidores adquiram produtos de marca e de luxo.  

Acrescentemos a tudo isto as vultosas compras no estrangeiro de veículo, máquinas, ferramentas, equipamentos, material eléctrico e electrónico, instrumentos científicos, produtos químicos e farmacêuticos. Toda esta panóplia de produtos industriais e alimentares justificam quatro perguntas:

– quantos empregos foram criados no estrangeio para corresponder às importações feitas pelos portugueses?
– quantos empregos poderiam ser criados em Portugal se houvesse um racional ajustamento entre a nossa estrutura de consumo e a nossa estrutura produtiva?
– que acções foram tomadas ao longo dos anos, pelos governos do bloco central, no sentido de substituir as importações por produção nacional?
– que medidas foram postas no terreno com vista a satisfazer o mercado interno?

Quatro perguntas nossas, quatro silêncios deles.

Esses silêncios não se circunscrevem, apenas, aos governantes do PS, PSD e CDS-PP. Esses silêncios são estensivos aos gurus do sistema vigente que todos os dias, alternadamente, na TVI, na SIC e na RTP proclamam, sem contraditório, que não há alternativas ao retrocesso social imposto pelas troikas.

Quando falamos em gurus, falamos de Cantiga Esteves, João Duque, Miguel Beleza, Daniel Bessa, Medina Carreira, Ferreira Machado, António Borges, Victor Bento, António Nogueira Leite, João Salgueiro, entre muitos outros.

Pois bem, perguntemos a tais personalidades se, no alto das respectivas cátedras e no respaldo da sua sabedoria, alguma vez na vida, já fizeram os seguintes cálculos:

– que impacto haveria no mercado interno se o coeficiente entre os rendimentos dos mais ricos e os rendimentos do mais pobres equivalesse à média dos países europeus?
– quantos milhões (e milhões) de euros entrariam nos cofres do Estado sob a forma de impostos (IRS, IRC, IVA, etc.) se houvesse a substituição de importações por produção nacional (deixamos a cada um dels a fixaçã da taxa de substituição)?
– em função dessa taxa de substituição qual seria o impacto no Orçamento do Estado, na dívida do Estado e na dívida externa total?
– ainda em função dessa taxa de substituição quantos empregos seriam criados?

Outras quatro perguntas, outros tantos silêncios

(…)

Fonte Jornal Avante! 21.6.2012 

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From → O Tudo e o Nada

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