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A opinião chinesa sobre o tabu de Miguel Gomes

Maio 14, 2012

As palavras de Nuno Domingos na edição de Maio do Le Monde Diplomatique resumem a opinião d’A Chinesa sobre o badalado filme.

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Em Tabu, o “desejo de ficção” de Miguel Gomes recorre ao imaginário do cinema clássico americano, no qual o autor se inspirou para criar a sociedade colonial do seu filme. A construção ficcional, desconfiada da História e das ciências sociais, representações do mundo que limitam a liberdade criativa e a imaginação, surge como um espaço de liberdade normativa. Esta ideia parece sugerir que as formas artísticas estão separadas da sociedade, tanto no que respeita à produção, como no que concerne à recepção. O modo americano clássico de produção cinematográfica, aqui retrabalhado por Miguel Gomes, é, no entanto uma instância de poderosa normatividade. O êxito comercial de produtoras como a Fox, a Warner Brothers, A Metro, a MGM ou a RKO, baseava-se no inevitável encontro entre produção e consumo; na expectativa de que as imagens que saíam dos projectores nas salas de cinema fossem ao encontro das aspirações e imaginações do público, enfim, dos seus desejos de ficção.

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O modelo norte-americano que inspirou Miguel Gomes na representação de uma sociedade colonial em África está repleto de representações do “outro”, mesmo quando o menor dos seus males é um certo paternalismo humanista. Prolixo em normatividades sociais, este cinema encontra-se refém de representações que não dependem da liberdade do autor; mas de um cuidado produto de um sistema de produção que para se desenvolver foi beber a técnicas de marketing e aos estudos de sociologia da comunicação. É certo que Tabu não importa este modelo de forma pura, nem Miguel Gomes está habitado por qualquer sentimento nostálgico em relação ao império. De resto, a sua construção da sociedade colonial permite relativizar essa inspiração no modelo clássico norte-americano, introduzindo filtros e mediações que complexificam a representação (desde logo a narração na primeira pessoa). Porém, ao remeter a construção narrativa para um sistema auto-referencial, supostamente fechado nos seus universos estéticos e representacionais, o autor não reconhece o modo como as obras estão incrustadas em sistemas de produção que inevitavelmente constrangem os olhares criativos, para não falar de outras mediações cruciais que afectam o gesto do autor e a sua visão do mundo.

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Em entrevista ao semanário Expresso, o realizador afirmou que “Tabu é uma efabulação que não deve nada à realidade histórica mas que eu acho justa com essa realidade”. Mas de que realidade falamos? Se o mundo das personagens do filme se encontra em ebulição, a sociedade em que se movimentam sugere-nos uma aparente harmonia. Os africanos da plantação do chá do Guaré que trabalhavam no Monte Tabu, retratados em actividades laborais e outras situações quotidianas, parecem integrados, na sua impessoalidade, embora a História tenha vindo a salientar que nas plantações de chá da Alta Zambézia o trabalho forçado e todas as práticas de semi-escravatura abundavam. O filme, partindo da ideia que o império está a prazo, não oferece nenhuma leitura que permita perceber por que razão afinal está a prazo. Porque há uma guerra, sim, mas por que razão há uma guerra?

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Noutro âmbito, certo imaginário contemporâneo do colonialismo português, dimensão desse imaginário mítico da portugalidade, instrumentaliza o nacionalismo para acomodar inúmeros interesses bastante mais terreno e lucrativos; ao fazê-lo opera pela ocultação histórica, impondo silêncios sobre o real funcionamento colonial iníquo e brutal.

O bitaite chinês: A Chinesa pensa que o Sr. Miguel Gomes daria um excelente realizador durante o Estado Novo mas que agora não passa de um vira-casacas que viu demasiados filmes.

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From → O Tudo e o Nada

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