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A crise capitalista mata silenciosamente

Abril 23, 2012

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Impacto na mortalidade e no suicídio 

Em quase todos os estudos relevantes as crises económicas têm sido associadas a aumento da mortalidade, atribuída a doença cardiovascular, infecções respiratórias, doença hepática crónica, suicídio, homicídio e mortalidade infantil. Durante estas fases, a mortalidade por acidente de viação tende a descer.

Um estudo investigou como é que as variações económicas entre 1970 e 2007 afectaram as taxas de mortalidade em 26 países da União Europeia. A principal conclusão foi que o aumento rápido e significativo do desemprego se associou ao aumento a curto prazo do suicídio e do homicídio: por cada 1% de aumento de desemprego houve uma subida de 0,79% do suicídio em idades inferiores aos 65 anos, uma de 0,79% do homicídio e uma redução de 1,39% das mortes por acidente de viação (reflectindo menor utilização do carro). Alguns dos efeitos negativos do desemprego na taxa de suicídio foram mitigados com programas activos de reinserção no mercado de trabalho: cada aumento de 10 dólares por pessoa em investimento nestes programas reduziu o suicídio em 0,038%.

Os mesmo autores apresentaram uma avaliação preliminar dos dados de mortalidade em 10 países da União Europeia no período 2000-2009, pretendendo contabilizar já os efeitos da crise financeira que começou em 2008. As taxas oficiais de desemprego não aumentaram até 2009, altura em que aumentaram rapidamente até cerca de 35% acima do nível de 2007.

Até 2007 tinha-se observado uma tendência de descida das taxas de suicídio, mas esta tendência consistente inverteu-se em 2008, aumentando as taxas de suicídio ainda mais em 2009. Os países a enfrentar as maiores dificuldades financeiras, como a Grécia e a Irlanda, tiveram os maiores aumentos do suicídio (17% e 13%, respectivamente). Estes dados também mostram a rapidez do impacto das crises económicas na saúde: o aumento do suicídio foi observado quando surgiram “indicadores precoses” de crise, com a insegurança laboral e económica a antecipar o posterior aumento do desemprego.

As subidas do desemprego nos Estados Unidos nos anos 20 e 30 estiveram associadas a subidas abruptas do suicídio masculino. Na Federação Russa, as mudanças sociais após a dissolução da União Soviética em 1991 e o colapso do rublo em 1998 foram seguidas de aumento das mortes relacionadas com o álcool. Da mesma forma, na União Europeia grandes subidas no desemprego estiveram associadas a um aumento em 28% das mortes por uso de álcool. A crise económica asiática esteve associada a um brusco aumento na mortalidade por suicídio em alguns, mas não todos, os países do Leste/Sudeste Asiático (cerca de 10000 suicídios em Hong Kong, Japão e Coreia). Este aumento do suicídio este muito estreitamente associado à bruca subida do desemprego.

(…)

Mitigar as consequências da recessão

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e vários especialistas têm alertado para a necessidade de políticas contracíclicas e de manutenção dos orçamentos públicos que possam minorar o efeito negativo da crise na saúde mental. Várias abordagens são defendidas, como políticas sociais para criar novos emprego, benefícios sociais adequados para as pessoas desempregadas e apoios na comunidade adequadamente orçamentados para ajudar pessoas com problemas derivados da perda de emprego, da dívida e de hipotecas em atraso. É da maior importância que se mantenham os cuidados de saúde preventivos e de reabilitação e que se garanta o acesso aos serviços de saúde por aqueles que deles precisam, com particular atenção aos grupos mais vulneráveis 

Combater as desigualdades em saúde é uma prioridade de saúde pública defendida há varios anos, em tratados internacionais sucessivos. Assumir esse objectivo no presente, altura em que os factores de protecção da saúde mental estão enfraquecidos e os factores de risco para a doença mental reforçados, é um imperativo urgente e inadiável.

Fonte Le Monde Diplomatique Ed. Portuguesa Abril 2012

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From → O Tudo e o Nada

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