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Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil.”

Março 23, 2012

(…) 

Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambidp. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos – sempre os mesmos – aprestam-se ao culto público de “os Mercados” com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo.

Tenho gente que estimo na chamada “comunicação social”. Uns são amigos. Outros, às vezes sem os conhecer, merecem-me respeito e, até, admiração. E nisto conta pouco a posição política. Creio que posso não apenas exceptuá-los, mas chamá-los a mim, ao dizer que uma boa parte da informação redesenha o anúncio da voz do dono. Tem vindo a preparar sistematicamente as consciências para o presente festival do patronato. As opiniões correntes nos jornais são cada vez mais as opiniões dos proprietários e administradores dos jornais. Instruções dadas pelo telefone? Em encontros misteriosos? Nem tanto. Antes o instinto de captação do comprimento de onda. Afinação dos registos. Querença. Qualquer desvio táctico é calculado, como a deriva dos navios ancorados no fundo. Os resultados da propaganda avaliam-se no médio prazo. As contas fazem-se no final do ano. Trata-se de manter o populacho resignado, ou orientar-lhe as efusões para os pontos em que se esfumem.

Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando sempre é constuído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. Chegamos a esta maravilha paradoxal de serem os carneiros a eleger os lobos, os coelhos a eleger os furões, os pintos a eleger as raposas, as carpas a votar no lúcio, o melro a votar na cobra.

Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. “Para ver já a seguir. Não saia daí”. Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacriditá-lo. Como se fez, em tempos, aos “abolicionistas”. Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários.

(…) 

Mário de Carvalho, Escritor

Fonte Le Monde Diplomatique Edição Portuguesa Março 2012

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From → O Tudo e o Nada

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